Avaliação crítica · 29 mar 2026
CHIP-BCIS3: Impella CP versus sem suporte mecânico na ICP eletiva de alto risco
Perera D, Ryan M, Ezad SM, Khan SQ, Webb I, O'Kane PD, et al. Left Ventricular Unloading in High-Risk Percutaneous Coronary Intervention. N Engl J Med. 2026 (publicado online em 29 mar 2026).
doi:10.1056/NEJMoa2515704 · Ensaio clínico randomizado aberto, com adjudicação cega de desfechos (Reino Unido; NCT05003817), n = 300
Resumo
O CHIP-BCIS3 randomizou 300 pacientes com disfunção ventricular esquerda grave e doença coronária extensa, em ICP complexa planejada. Foram 148 para descarga ventricular eletiva com bomba de fluxo microaxial (Impella CP) e 152 para tratamento padrão. A FEVE mediana foi de 27% e o SYNTAX mediano de 38. O estudo foi financiado pelo NIHR do Reino Unido.
O desfecho primário foi hierárquico (morte, AVC incapacitante, IAM espontâneo, internação cardiovascular e lesão miocárdica periprocedimento), analisado por win ratio, com seguimento mediano de 22 meses.
| Resultado | Valor |
|---|---|
| Win ratio | 0,85 (IC 95% 0,63 a 1,15) |
| Diferença no nível de morte | −7,0 pontos percentuais, a favor do tratamento padrão |
| Diferença no nível de lesão miocárdica | −3,9 pontos percentuais, a favor do tratamento padrão |
| Morte por qualquer causa | 47 vs 33 (HR 1,54; IC 95% 0,99 a 2,41) |
| Morte cardiovascular | HR 1,91 (IC 95% 1,11 a 3,30) |
| Índice de revascularização | 67% vs 67% |
Pontos fortes
- Iniciado pelo investigador, com financiamento público e sem patrocínio da indústria.
- Adjudicação cega de desfechos.
- População de ICP eletiva de maior risco já randomizada.
- O win ratio mostra em quais níveis do desfecho cada braço ganhou.
Problemas metodológicos
- Morte cardiovascular é secundária. O HR de 1,91 não tem ajuste para multiplicidade. Mesmo assim, morte por qualquer causa, lesão periprocedimento e a decomposição do win ratio apontam na mesma direção.
Opinião
Os dois níveis de maior importância clínica, morte e lesão miocárdica, favoreceram o tratamento padrão.
O mecanismo proposto para o Impella, permitir revascularização mais completa, não se confirmou: o índice de revascularização foi de 67% nos dois braços. A plausibilidade fisiológica é condição necessária, mas não prova benefício.
O DanGer Shock mostrou benefício no choque cardiogênico. É outra doença e outra fisiologia, e o resultado foi outro. Proteção na ICP eletiva e resgate no choque são cenários diferentes e não devem ser confundidos.
Para mim, o CHIP-BCIS3 é evidência limpa contra o uso eletivo de Impella na ICP de alto risco.