Avaliação crítica · 19 mar 2026
CLOSURE-AF: fechamento do apêndice atrial esquerdo versus tratamento clínico em pacientes de alto risco
Landmesser U, Skurk C, Kirchhof P, Lewalter T, Hartung J, Rroku A, et al. Left Atrial Appendage Closure or Medical Therapy in Atrial Fibrillation. N Engl J Med. 2026;394(13):1270-1280.
doi:10.1056/NEJMoa2513310 · Ensaio clínico randomizado multicêntrico de não-inferioridade (Alemanha; NCT03463317), n = 912
Resumo
O CLOSURE-AF randomizou 912 pacientes com FA e alto risco de AVC e sangramento para fechamento do apêndice atrial esquerdo (LAAC) ou tratamento clínico definido pelo médico, incluindo DOAC quando elegível. A análise primária incluiu 888 pacientes. Idade média de 78 anos, CHA₂DS₂-VASc 5,2 e HAS-BLED 3,0.
O desfecho primário combinou AVC, embolia sistêmica, sangramento maior e morte cardiovascular ou inexplicada. O estimador foi a diferença de tempo médio de sobrevida restrito (dRMST). O LAAC não atingiu a não-inferioridade: dRMST −0,36 ano, P = 0,44 para não-inferioridade. O seguimento mediano foi de 3 anos.
As taxas de AVC foram 2,6 e 2,7 por 100 pacientes-ano nos braços LAAC e clínico.
Pontos fortes
- Randomizado, em população de alto risco em que a pergunta é relevante.
- O dRMST é o estimador adequado quando os riscos não são proporcionais entre uma estratégia de procedimento e uma farmacológica.
- O suplemento publica os dados que permitem ver a inversão do efeito ao longo do tempo (Tabela S11, Figura S2).
Problemas metodológicos
- Complicações do procedimento acima do esperado. 5,7% dos pacientes tiveram complicação em 7 dias, incluindo 18 sangramentos BARC 3 ou mais com transfusão em 421 tentativas. No PRAGUE-17 (idade média 73 anos, mesmos dispositivos, mesmo HAS-BLED), as complicações precoces foram 2,1%. O sucesso do procedimento foi maior no CLOSURE-AF (98,3% vs 96,8%), o que torna a diferença de complicações difícil de explicar.
- DAPT após o implante numa população idosa e frágil. Os pacientes eram cerca de 5 anos mais velhos e mais frágeis que nos ensaios anteriores. No ADALA (JAMA Cardiol 2024), primeiro ensaio randomizado de estratégia antitrombótica após LAAO, apixabana em dose baixa reduziu o composto em 80% contra DAPT (HR 0,19; p = 0,02) em 90 pacientes. A redução veio de menos trombose do dispositivo e tendência a menos sangramento maior. A DAPT pode ter colocado o braço LAAC em desvantagem desde o primeiro dia.
- O horizonte do RMST decide o resultado. O RMST integra a área sob a curva livre de eventos até τ. Quando o efeito inverte de direção, τ define o veredito. Pela Tabela S11, sangramento antes de 3 meses foi 9,0% no LAAC vs 3,9% no braço clínico. Após 6 meses, foi 6,7% vs 10,6%. Os resíduos de Schoenfeld (Figura S2) confirmam o cruzamento. Truncado em 3 anos, o dRMST captura todo o dano precoce e só parte do benefício tardio.
- Mortalidade competitiva. No PRAGUE-17, o sangramento clinicamente relevante não relacionado ao procedimento só atingiu significância com 3,5 anos (sHR 0,55; IC 95% 0,31 a 0,97; p = 0,039). No CLOSURE-AF, o seguimento mediano foi de 3 anos e um terço dos pacientes morreu até o fim do estudo, muitos antes da janela em que o benefício do LAAC aparece.
Opinião
O ensaio foi negativo, e esse resultado é real. Discordo da leitura de que o LAAC não funciona. As taxas de AVC foram iguais nos dois braços: o dispositivo fez o que foi desenhado para fazer. O resultado negativo veio de outros componentes do composto.
Minha posição:
- O LAAC não deve substituir o DOAC em quem pode usá-lo com segurança. A apixabana funciona.
- Em pacientes em que a anticoagulação de longo prazo não é viável, este ensaio não resolve a questão. Talvez mostre que idade de 78 anos, fragilidade e DAPT são o cenário errado para testar o dispositivo.
- O CHAMPION-AF deve trazer a próxima peça.