Stefano Garzon

Avaliação crítica · 9 abr 2026

Doma et al.: ICP de oclusão total crônica no IAM com choque cardiogênico

Doma M, Ramadan A, Cogar B, McEntegart MB, Mashayekhi K, Alaswad K, et al. Percutaneous Coronary Intervention for Chronic Total Occlusion in Acute Myocardial Infarction Complicated by Cardiogenic Shock. Can J Cardiol. 2026;42(7):1513-5.

doi:10.1016/j.cjca.2026.03.047 · Coorte retrospectiva de braço único em base administrativa (carta de pesquisa), n = 617

Resumo

Carta de pesquisa sobre ICP de oclusão total crônica (CTO) em pacientes com IAM complicado por choque cardiogênico. A ICP de CTO foi identificada por códigos de faturamento CPT/HCPCS. O critério temporal exigiu diagnóstico de choque no dia anterior ou no mesmo dia da ICP de CTO.

Foram incluídos 617 pacientes. 81,9% fizeram também ICP de outro vaso, descrita como anterior à ICP de CTO (tratamento do vaso culpado). Mais de 60% receberam suporte mecânico (balão intra-aórtico, Impella ou ECMO).

DesfechoValor
Mortalidade em 30 diascerca de 27%
Mortalidade em 5 anos40,4%
Seguimento médio1,68 ± 1,97 anos

Os autores compararam a mortalidade de 30 dias com a de cerca de 50% em registros amplos de IAM com choque (Karami et al., Goyal et al.).

Pontos fortes

  • Primeiro estudo dedicado a ICP de CTO no IAM com choque de que tenho conhecimento.
  • Amostra de 617 pacientes em um cenário pouco estudado.

Problemas metodológicos

  • CTO sem confirmação. A definição de consenso exige oclusão documentada há pelo menos 3 meses. Sem core lab, adjudicação ou confirmação angiográfica de cronicidade, a classificação depende do código do operador. A coorte provavelmente inclui oclusões agudas codificadas como CTO. Tratar uma oclusão aguda não culpada no choque é um cenário diferente de abrir uma oclusão crônica com colaterais.
  • Momento da identificação da CTO. Não se exigiu que a CTO fosse descoberta na internação índice. Um paciente com CTO de coronária direita conhecida que chega com IAM anterior e choque preenche os critérios. A coorte mistura ao menos três grupos: CTO descoberta na angiografia índice, CTO conhecida tratada por causa do choque (por exemplo, dificuldade de desmame do suporte após ICP do culpado) e oclusão aguda codificada como CTO. Não há material suplementar para separá-los.
  • Sem dados de tempo. O critério temporal é grosseiro. Não se sabe o intervalo real nem se o paciente estava estabilizado antes da ICP de CTO. Os cerca de 18% sem ICP do culpado são o subgrupo menos claro: talvez IAM sem supra com múltiplas CTOs ou culpado em enxerto venoso.
  • Sem comparador. O estudo é de braço único. Os registros citados incluem SCAI C a E, parada extra-hospitalar, complicações mecânicas e pacientes que nunca chegaram à hemodinâmica. Sem estágio SCAI nem dados hemodinâmicos, não se sabe se a ICP de CTO foi feita em pacientes estáveis ou como última tentativa.
  • Viés de seleção. Para fazer ICP de CTO no choque, o paciente precisa sobreviver ao evento agudo, fazer ICP do culpado (81,9%), estabilizar com suporte mecânico (mais de 60%) e ser considerado apto a um procedimento complexo. Ninguém faz CTO retrógrada em SCAI E. São os sobreviventes considerados recuperáveis.
  • Viés de tempo imortal. O intervalo entre o diagnóstico de choque e a ICP de CTO é imortal: o grupo exposto não pode morrer antes do procedimento. Os registros de comparação acumulam mortes desde o tempo zero. Só isso pode produzir uma vantagem aparente de sobrevida.
  • Análise só descritiva. Sem ajuste multivariado, pareamento por escore de propensão ou regressão. Com seguimento médio de 1,68 ± 1,97 anos, a mortalidade de 5 anos de 40,4% se apoia em poucos pacientes em risco após 3 anos. Não há intervalos de confiança para a incidência cumulativa. Não há subgrupos (ICP estadiada versus no mesmo procedimento, balão intra-aórtico versus Impella, culpado mais CTO versus só CTO).

Opinião

O CULPRIT-SHOCK (Thiele et al., NEJM 2017) mostrou que ICP multiarterial imediata no IAM com choque aumentou a mortalidade em 30 dias em relação à ICP só do culpado. O mecanismo é o tempo de procedimento, o contraste e o estresse hemodinâmico em um paciente em descompensação. A ICP de CTO é a forma de ICP mais longa e complexa: abordagem retrógrada, cateter-guia de alto suporte, fluoroscopia longa, dissecção e reentrada. Se tratar lesões não culpadas não ocluídas causou dano em um ensaio randomizado, não vejo por que a CTO seria mais bem tolerada.

Até pouco tempo, nem o benefício sobre angina em pacientes estáveis estava estabelecido: o DECISION-CTO foi neutro e o EURO-CTO teve poder insuficiente. A plausibilidade de benefício no choque vai na direção contrária, e o risco de morte nesse cenário é alto demais para um efeito da ICP aparecer.

O estudo mostra que ICPs presumidas de CTO feitas em internações por IAM com choque tiveram uso alto de suporte mecânico e mortalidade de cerca de 27% em 30 dias. Por desenho, não pode mostrar que a ICP de CTO melhora desfechos. A mortalidade menor que a dos registros históricos se explica melhor por seleção e tempo imortal, em uma coorte com CTO incerta e heterogênea.

O próximo passo seria uma emulação de ensaio-alvo, com tempo zero na angiografia índice que mostra CTO não culpada, alocação para ICP de CTO ou não, e clonagem ou ponderação para o tempo imortal. Seria preciso estratificar por estágio SCAI, território da CTO e uso de suporte mecânico. Na prática, quase impossível.

As diretrizes ACC/AHA recomendam ICP só do culpado no IAM com choque (classe I). Para mim, este estudo não traz evidência contra essa recomendação, mas aponta uma população que merece estudo mais rigoroso.