Stefano Garzon

Avaliação crítica · 3 abr 2026

Koeckerling et al.: mortalidade em 10 anos após ICP ou CRM no tronco, meta-análise com IPD reconstruído

Koeckerling D, Reddy RK, Howard JP, Bansal R, Bernstein H, Lehmann L, et al. Long-Term Mortality After PCI or CABG for Left Main Stem Disease: Updated Meta-Analysis of Randomized Trials Using Reconstructed Individual-Participant Survival Data. J Am Coll Cardiol. 2026.

doi:10.1016/j.jacc.2026.01.079 · Meta-análise de 5 estudos randomizados com dados individuais de sobrevida reconstruídos, n = 4.499

Resumo

A meta-análise reuniu os 5 estudos randomizados de ICP versus CRM no tronco: LE MANS, SYNTAX, PRECOMBAT, EXCEL e NOBLE, com 4499 pacientes. Os dados individuais de tempo até o evento foram reconstruídos das curvas de Kaplan-Meier (algoritmo IPDfromKM), com acurácia de 98,7% nas contagens de eventos.

A análise principal usou modelo de Cox de 1 estágio com fragilidade γ por estudo. O pressuposto de riscos proporcionais foi verificado (resíduos de Schoenfeld, p = 0,59). RMST e meta-análise convencional de efeitos fixos e aleatórios foram feitas como análises complementares.

DesfechoICPCRMEfeito
Mortalidade em 10 anos23,4%23,3%HR 1,02 (0,89 a 1,17)
Diferença de RMST0,0 ano (−0,2 a 0,1)

Todas as abordagens convergiram para o mesmo resultado.

Pontos fortes

  • Inclui todos os estudos randomizados da comparação.
  • Reconstrução de dados com fidelidade alta (98,7%).
  • Modelo de 1 estágio com fragilidade por estudo, riscos proporcionais verificados e RMST como análise complementar.
  • Mortalidade por qualquer causa é o desfecho menos sujeito a viés de aferição.

Problemas metodológicos

  • EXCEL censurado em 5 anos. O EXCEL é o maior estudo (n = 1905, 23% do peso) e o único com stent farmacológico de segunda geração (everolimus). Foi o único com excesso significativo de mortalidade com ICP aos 5 anos (13,0% vs 9,9%). Os autores do EXCEL escreveram em 2019 que as curvas de risco continuavam divergindo e que seria necessário seguimento de 10 anos. A censura administrativa não enviesa o HR na janela observada, mas impede saber se a divergência continuou. Os 4 estudos com dados de 10 anos usaram stent de primeira geração ou convencional.
  • IPD reconstruído não recupera covariáveis. Não é possível testar interação do tratamento com diabetes, síndrome coronária aguda ou escore SYNTAX aos 10 anos. A meta-análise de IPD de Sabatine et al. (Lancet 2021) não encontrou interação aos 5 anos; estender isso a 10 anos é suposição. O NOBLE aos 10 anos relatou interação com SCA (HR 0,57 a favor da ICP, p de interação 0,049), que aqui não pôde ser testada.
  • Só mortalidade. Não há IAM, AVC nem nova revascularização. A escolha é defensável, mas deixa a comparação incompleta.

Opinião

Como exercício, combinei os 3 estudos que relatam desfechos não fatais no seguimento mais longo disponível: LE MANS (10 anos), PRECOMBAT (10 anos) e EXCEL (5 anos), cerca de 2610 pacientes. É uma análise exploratória.

Desfecho, ICP vs CRMRR (IC 95%)
Nova revascularização1,66 (1,36 a 2,03)
IAM total1,12 (0,87 a 1,46)
IAM espontâneo (dados do EXCEL)1,64 (1,14 a 2,38); p = 0,008

O IAM total parece neutro porque, no EXCEL, o IAM periprocedimento favoreceu a ICP (RR em torno de 0,66) e o IAM espontâneo favoreceu a CRM (RR em torno de 1,92). Os dois se cancelam no total. A CRM parece proteger melhor contra IAM espontâneo tardio, possivelmente porque os enxertos contornam placas proximais que o stent não trata. SYNTAX e NOBLE não coletaram esses desfechos entre 5 e 10 anos, então essa análise é incompleta.

O OPTIMAL (Testa et al., NEJM 2026) não mostrou benefício da ICP guiada por IVUS sobre a guiada por angiografia no tronco (HR 1,11; 0,87 a 1,42). Isso parece contradizer o subestudo de IVUS do NOBLE (mortalidade de 20% vs 31% com e sem IVUS final). Para mim, a observação do NOBLE era confundida por indicação. No OPTIMAL, o braço angiográfico teve pós-dilatação em 96% e POT em 85%. Os operadores aplicam os critérios do IVUS mesmo sem o IVUS. Se nem o IVUS muda o resultado em centros experientes, a igualdade de mortalidade da meta-análise não depende de uma ICP hipoteticamente melhor.

Minhas conclusões:

  1. ICP e CRM dão a mesma probabilidade de estar vivo em 10 anos em pacientes com tronco e SYNTAX ≤ 32.
  2. Sobrevida igual não significa desfechos iguais. A ICP traz cerca de 66% mais nova revascularização e provavelmente mais IAM espontâneo. A CRM traz mais AVC periprocedimento e recuperação inicial mais difícil.
  3. A escolha depende de qual conjunto de trocas serve ao paciente: anatomia, comorbidades, valores, medo da cirurgia e tolerância a nova intervenção. A mortalidade igual é a base; o resto é decisão compartilhada.