Avaliação crítica · 21 jun 2026
PARTNER 2A aos 10 anos: TAVI versus cirurgia em risco intermediário
Thourani VH, von Stein P, Mack MJ, Nazif TM, Babaliaros V, Alkhouli M, et al. 10-Year Randomized Outcomes of Transcatheter or Surgical Aortic Valve Replacement in Intermediate-Risk Aortic Stenosis. J Am Coll Cardiol. 2026;87(23):3309-3321.
doi:10.1016/j.jacc.2026.03.169 · Ensaio clínico randomizado, seguimento de 10 anos (57 centros; NCT01314313), n = 1.910
Resumo
O PARTNER 2A randomizou, entre 2011 e 2013, pacientes com estenose aórtica grave e risco cirúrgico intermediário para TAVI com SAPIEN XT ou cirurgia. Na população com implante, 974 receberam TAVI e 936 cirurgia. Idade média de 81,6 anos e STS médio de 5,8%.
Para o seguimento de 10 anos, foi exigido novo consentimento aos 5 anos. A mortalidade foi completada por busca de status vital em registros públicos, com cerca de 90% de completude.
| Desfecho em 10 anos | TAVI | Cirurgia |
|---|---|---|
| Mortalidade por qualquer causa | 86,1% | 82,8% |
| Reintervenção (incidência cumulativa) | 6,3% | 1,6% |
| Reintervenção (Kaplan–Meier, sensibilidade) | 16,1% | 2,7% |
Mortalidade: HR 1,13 (IC 95% 1,02 a 1,25). O excesso ficou no acesso transapical/transaórtico; no transfemoral a mortalidade foi semelhante (83,9% vs 82,1%). Reintervenção pelo Kaplan–Meier: HR 4,26.
Pontos fortes
- Ensaio randomizado de TAVI contra cirurgia com seguimento de uma década, em coorte idosa de risco intermediário.
- Reintervenção analisada como função de incidência cumulativa com teste de Gray, tratando a morte como risco competitivo. É o estimando adequado numa coorte com cerca de 83% de mortalidade em 10 anos.
- O Kaplan–Meier ingênuo foi apresentado como análise de sensibilidade, com a ressalva de que superestima o risco.
- Mortalidade recuperada até cerca de 90% de completude por busca de status vital.
- Os autores descrevem as próprias limitações de seguimento.
Problemas metodológicos
- Desfechos não fatais fora da busca de status vital. A reintervenção depende só da coorte que permaneceu no estudo. No ano 6, a mortalidade tem cerca de 380/396 pacientes em risco por braço; a reintervenção tem 174/159. Depois do novo consentimento aos 5 anos, a durabilidade é estimada em menos da metade da população randomizada.
- Perda diferencial e possivelmente informativa. Entre os pacientes cirúrgicos vivos aos 5 anos, 59,3% (270/455) recusaram o novo consentimento. Eles saíram justamente no período de 5 a 10 anos, em que a falência de bioprótese é mais provável. A perda foi maior na cirurgia. Se o novo consentimento acompanha o estado de saúde, a censura é informativa e pode enviesar a própria curva de incidência, a favor da cirurgia.
- Poucos eventos no braço cirúrgico. Os 1,6% vêm de oito eventos, três deles na janela tardia.
- Resultado frágil. Reconstruí as curvas publicadas (Aalen–Johansen, reproduzindo 6,3% / 1,6% e um p próximo ao do teste de Gray). Cerca de dez reintervenções cirúrgicas não observadas eliminam a significância; cerca de 25 levam à paridade. Entre os cerca de 425 pacientes cirúrgicos que saíram do estudo, dez eventos equivalem a uma taxa de reintervenção de 2% a 4%.
- Taxa cirúrgica provavelmente subestimada. Cerca de 15% das válvulas cirúrgicas eram Mitroflow e Trifecta, com falência precoce conhecida; a reintervenção com Mitroflow em 10 anos chegou a cerca de 22%. No NOTION aos 10 anos, com seguimento quase completo, a deterioração estrutural grave cirúrgica foi de cerca de 10% e a falência de bioprótese de cerca de 14%. A reintervenção também subconta a falência, porque octogenários frágeis muitas vezes não são reoperados, como os autores observam.
Opinião
O artigo é metodologicamente correto e traz evidência de longo prazo que faltava. Os dois resultados principais apontam na mesma direção, mas têm pesos de evidência diferentes.
A mortalidade se sustenta: HR 1,13 (1,02 a 1,25), cerca de 90% de completude e concordância na análise de sensibilidade por intenção de tratar. As nuances são de leitura: o RMST entre 5 e 10 anos não foi significativo, e o excesso ficou restrito ao acesso transapical/transaórtico.
A direção do sinal de durabilidade é plausível. A SAPIEN XT tem características que preveem mais reintervenção: estrutura de segunda geração, dimensionamento sem TC e ausência da válvula de 29 mm nos primeiros 42,5% da inclusão. Um aumento relativo de quatro vezes, apoiado em oito eventos e num braço que perdeu cerca de 45% do seguimento de forma não aleatória, não define a magnitude. Para mim, 1,6% é um piso, calculado sobre um denominador observado só em parte.