Avaliação crítica · 24 mar 2026
ROLLING STONE: litotripsia intravascular versus aterectomia em coronárias calcificadas
Cerrato E, Pavani M, Zecchino S, Leoncini M, Zanda G, Abdirashid M, et al. Intravascular Lithotripsy or Mechanical Debulking in Complex Calcified Coronary Arteries: Multicenter, Prospective ROLLING STONE Study. JACC Cardiovasc Interv. 2026;19(5):571-82.
doi:10.1016/j.jcin.2025.11.033 · Registro prospectivo multicêntrico com core lab cego e comitê de eventos independente (Itália; NCT05016726), n = 1.005
Resumo
O ROLLING STONE incluiu 1.005 pacientes consecutivos com doença coronária calcificada em 23 centros italianos. A comparação foi entre litotripsia intravascular (IVL, n = 544) e aterectomia rotacional ou orbital (AT, n = 380); 81 pacientes tratados com as duas técnicas foram excluídos. A angiografia foi analisada em core lab cego, e o seguimento de 30 dias foi completo em 99,8%.
O sucesso do procedimento foi de 85,4% com IVL e 86,3% com AT.
| MACE | Bruto | Pareamento por propensão (n = 320) | IPW (n = 532) |
|---|---|---|---|
| 30 dias | HR 0,60 (0,36 a 0,99), P = 0,045 | HR 0,49 (0,17 a 1,44), P = 0,20 | HR 0,49 (0,17 a 1,45), P = 0,20 |
| 12 meses | HR 0,71 (0,49 a 1,04), P = 0,079 | HR 0,43 (0,21 a 0,89), P = 0,022 | HR 0,44 (0,22 a 0,90), P = 0,024 |
No pareamento, o MACE de 12 meses foi de 6,8% com IVL e 14,3% com AT (11 vs 23 eventos).
Os pacientes de AT tinham stents mais longos (mediana de 50 vs 33 mm), mais doença multiarterial (84% vs 74%) e mais bifurcações (35% vs 24%).
Pontos fortes
- Prospectivo, grande, com core lab cego e comitê de eventos independente. Para um registro iniciado pelo investigador, o padrão metodológico é alto.
- Seguimento de 30 dias em 99,8%.
- Dois métodos de ajuste (pareamento e IPW) com resultados concordantes.
- Pressuposto de riscos proporcionais testado por resíduos de Schoenfeld, caliper estrito de 0,1 no pareamento e resultado apresentado como gerador de hipótese.
Problemas metodológicos
- Perda de amostra no pareamento. A coorte caiu de 924 para 320 pacientes. Dois terços ficaram fora da análise ajustada principal. O IPW preserva mais pacientes (532).
- Mesmo modelo de propensão nos dois métodos. A concordância entre pareamento e IPW mostra estabilidade entre técnicas, mas não que o modelo esteja correto.
- Variáveis pós-tratamento no modelo. Comprimento do stent e diâmetro do vaso são definidos durante o procedimento, influenciados pelo dispositivo e pela estratégia do operador. Incluí-los condiciona a análise em um mediador e pode enviesar a estimativa.
- Preditores de MACE ausentes do modelo. CTO, bifurcação, tronco, FEVE, insuficiência renal e subtipo de apresentação clínica não entraram. Alguns tinham desequilíbrio significativo na Tabela 1.
- Carga de cálcio não quantificada. Sem escore por tomografia nem arco de cálcio por IVUS ou OCT. A avaliação foi só angiográfica, subjetiva e pouco sensível ao cálcio profundo.
- Viés de indicação. Os operadores escolheram AT para anatomia mais complexa. Essa decisão carrega julgamento clínico que nenhuma lista de covariáveis captura. Pareamento e IPW não resolvem viés de indicação.
- Exclusão do IVL de resgate. Antes do pareamento, 56 pacientes com IVL usada só como resgate para subexpansão do stent foram excluídos. São pacientes de alto risco. A exclusão reduz a taxa de eventos do grupo IVL de forma assimétrica.
- Separação tardia sem diferença precoce. No bruto, o MACE de 30 dias foi significativo e o de 12 meses não. Após o pareamento, ocorreu o inverso. A convergência precoce é esperada, já que o pareamento equilibrou a anatomia. Uma separação tardia sem diferença inicial precisa de explicação.
- Poucos eventos. O resultado pareado de 12 meses se apoia em 11 vs 23 eventos, com IC de 0,21 a 0,89, uma faixa de quatro vezes. Mudar poucos eventos de lado altera a conclusão.
Opinião
A diferença bruta em 30 dias é coerente com a biologia: a AT é mais agressiva e foi usada em anatomia mais complexa, com mais eventos periprocedimento. Depois do procedimento, as trajetórias deveriam convergir.
Vejo duas leituras para a separação tardia no pareamento. Na primeira, na população em equilíbrio real, a IVL causa menos trauma ao vaso e melhor cicatrização, com benefício tardio. Isso seria clinicamente relevante e é plausível. Na segunda, a exclusão do IVL de resgate e as variáveis pós-tratamento no modelo formaram uma coorte pareada em que o MACE do IVL caiu de cerca de 11% para 6,8%, enquanto o da AT mudou pouco. Nesse caso, a separação seria em parte artefato da composição da amostra. Com essa precisão, não consigo distinguir as duas.
O ROLLING STONE mostra que IVL e aterectomia são viáveis, eficazes e seguras na ICP de lesões calcificadas complexas, com sucesso de procedimento equivalente. O registro é bem executado e faz a pergunta certa. Ainda não mostra superioridade, e os autores são transparentes sobre isso.
O próximo passo é um ensaio randomizado com quantificação do cálcio, estratificação por gravidade e desfechos clínicos duros.