Stefano Garzon

Estatística · 23 out 2026

Análises interinas e interrupção precoce: O'Brien-Fleming, Pocock e Haybittle-Peto

Conceito

Ensaios longos têm análises interinas. Um comitê independente de monitoramento revisa os dados acumulados em reuniões programadas. O objetivo é interromper o estudo se houver benefício claro, dano ou futilidade.

Cada análise interina é um teste adicional sobre o mesmo desfecho. Se cada análise usar o limiar de 1,96 (bilateral, α=0,05\alpha = 0{,}05), a probabilidade de algum resultado falso-positivo ao longo do estudo fica acima de 5%. Os métodos sequenciais de grupo definem fronteiras de parada que mantêm o erro tipo I global no nível nominal.

Como funciona

O ensaio planeja KK análises. Em cada análise kk, calcula-se a estatística ZkZ_k e compara-se com uma fronteira ckc_k. Se ∣Zk∣>ck|Z_k| > c_k, o ensaio pode parar.

Pocock. Usa o mesmo valor crítico em todas as análises. Com cinco análises e α\alpha bilateral de 0,05, o valor crítico é cerca de 2,413, maior que 1,96. A consequência prática: uma estatística final moderadamente alta pode ser julgada não significativa, embora fosse significativa num teste único.

O’Brien-Fleming. O valor crítico cai ao longo do estudo:

ck=cOBFK/kc_k = c_{OBF}\sqrt{K/k}

Com cinco análises e α\alpha bilateral de 0,05, cOBFc_{OBF} é cerca de 2,04. As primeiras análises exigem valores muito altos. Esses valores podem ser limitados (por exemplo, a 3,5) sem alterar de forma relevante as fronteiras finais. O valor crítico final fica próximo ao de um teste único: cerca de 2,05 contra 1,96, quando há menos de dez análises.

Haybittle-Peto. Usa um valor crítico alto e fixo, como 3,0, em todas as análises interinas. Na análise final aplica-se praticamente o valor usual. A regra é simples, mas não garante um erro tipo I global exato.

Funções de gasto de alfa (alpha spending). Lan e DeMets generalizaram esses métodos. O alfa total é distribuído ao longo da fração de informação acumulada, e as análises não precisam ocorrer em datas fixas. Uma função do tipo O’Brien-Fleming gasta pouco alfa no início. Uma do tipo Pocock gasta mais cedo.

Muitos comitês preferem fronteiras conservadoras no início. Com poucos eventos, alguns eventos adicionais mudam o resultado de forma importante.

Erros comuns ao ler um artigo

O que conferir ao ler um ensaio

  1. O protocolo define o número de análises interinas, a fração de informação de cada uma e o método de fronteira.
  2. Um comitê independente fez as análises interinas.
  3. O artigo informa a fronteira cruzada e o valor da estatística no momento da parada.
  4. O número de eventos acumulados é compatível com uma estimativa precisa.
  5. Há fronteiras separadas para dano e futilidade, que costumam ser assimétricas em relação à fronteira de benefício.
  6. O efeito observado é plausível frente a ensaios prévios da mesma intervenção.

Aplicação em cardiologia

Ensaios cardiovasculares orientados por eventos usam com frequência fronteiras do tipo O’Brien-Fleming ou Haybittle-Peto. Essas fronteiras tornam a parada precoce por benefício improvável no início e preservam um limiar final próximo de 0,05. Quando um ensaio para cedo por benefício, a leitura deve considerar a fronteira, o número de eventos e a largura do intervalo de confiança.

Referências