Pesquisa · 23 out 2026
Avaliação e relato de dano em ensaios clínicos
Conceito
Evento adverso é qualquer ocorrência indesejada durante o tratamento, com ou sem relação causal suspeita. Ocorre nos dois braços e é comparado entre eles. Efeito adverso é a resposta nociva em que a relação causal é ao menos uma possibilidade razoável. Dano é a soma dos efeitos adversos. Grave (severe) mede intensidade; sério (serious) mede consequência médica: morte, risco de vida, hospitalização inicial ou prolongada, incapacidade, anomalia congênita ou necessidade de intervenção para evitar dano.
O benefício tem desfecho pré-especificado e tamanho amostral calculado para ele. O dano raramente tem. O número de eventos possíveis é grande, muitos não são conhecidos no início e cada um tem frequência, gravidade e duração.
Forças e limitações do ensaio
O ensaio randomizado tem grupo controle comparável, permite definir eventos de interesse antes do início, reduz viés de avaliação quando é cego e acompanha os participantes de forma sistemática.
As limitações são quatro. A população é selecionada e de menor risco; idosos, pacientes com comorbidades e usuários de outros fármacos costumam ser excluídos. O poder é baixo para eventos raros: são necessários cerca de 3.000 participantes para observar um caso com 95% de probabilidade se a incidência real é 1 em 1.000. A duração é curta para efeitos tardios. Efeitos não procurados não são encontrados: sem ECG não se detecta arritmia, sem HbA1c não se detecta diabetes.
Venning revisou 18 reações adversas importantes; ensaios clínicos tiveram papel central na identificação de 3. Entre as novas advertências em tarja do FDA em 2009, 76% vieram de notificações espontâneas.
Coleta: espontânea ou solicitada
Perguntas abertas (“teve algum problema de saúde?”) captam eventos inesperados e tendem a registrar os mais intensos. Questionários dirigidos registram mais eventos e de forma padronizada. No AMIS, a pergunta dirigida aumentou a proporção de queixas nos dois grupos, e a diferença entre aspirina e placebo apareceu com os dois métodos. Em sintomas sensíveis a diferença é maior: disfunção sexual com antidepressivos foi relatada por 46,5% com escala específica, contra 1% a 2% por relato espontâneo nos ensaios de fluoxetina.
Classificação e tempo
O MedDRA é o dicionário padrão. Seus cerca de 20.000 termos preferidos fragmentam um mesmo problema: depressão pode ser codificada em 22 termos. Contagens por termo ficam pequenas e uma diferença real pode se diluir. Agregar por níveis superiores ou por consultas padronizadas (SMQ) exige julgamento clínico e deve ser descrito.
O tempo importa. No AMIS, a dor gástrica com aspirina foi máxima no início e depois diminuiu. No DCCT, o controle glicêmico intensivo causou piora precoce da retina, mas reduziu a progressão da retinopatia a longo prazo; a interrupção pelo achado inicial teria levado à conclusão oposta.
Análise
- Relato padrão. Abandono total e por motivo, tabela de eventos por grupo, eventos sérios, mortes e alterações laboratoriais. Tabelas com limiar de frequência (por exemplo, > 5%) omitem os eventos raros, que podem ser os mais graves.
- Eventos de interesse especial. Definidos no protocolo a partir do mecanismo, de dados em animais ou de fármacos da mesma classe. Podem ser adjudicados por comitê cego. A adjudicação pode reduzir contagens por definições restritivas. No RE-LY, o FDA concluiu que informação sobre o grupo estava disponível aos adjudicadores em 17% dos casos.
- Análises post hoc e mineração de dados. Geram hipóteses e devem ser identificadas como tal.
- Metanálise. Ajuda quando os ensaios isolados são inconclusivos, mas sofre com relato incompleto e viés de publicação. Ausência de diferença significativa não prova segurança.
Relato
Ioannidis e Lau avaliaram 192 ensaios: a gravidade dos efeitos clínicos foi adequadamente definida em 39%, e 46% informaram os motivos de suspensão por toxicidade. A extensão do CONSORT para dano (2004) traz dez recomendações, entre elas definir cada evento, descrever como foi coletado, dar denominadores e apresentar risco absoluto por braço. Pitrou e colaboradores, em 133 ensaios de 2006, encontraram 47,4% sem informação sobre suspensão por evento adverso e 32,3% com relato restrito, por exemplo só aos eventos mais comuns.
Uma hierarquia útil de gravidade é: suspensão definitiva do tratamento, redução permanente de dose, redução temporária, queixa sem mudança.
Erros comuns ao ler um artigo
- Ler “sem diferença em eventos adversos” como prova de segurança.
- Usar “segurança” no lugar de “dano”, que descreve o que foi medido.
- Ignorar a população de baixo risco e a curta duração ao generalizar.
- Aceitar tabela de eventos com limiar de frequência sem lista de eventos sérios.
- Comparar taxas de ensaios com métodos de coleta diferentes.
O que conferir ao ler um ensaio
- Como os eventos foram coletados: pergunta aberta, questionário, exames.
- Quais eventos de interesse especial foram pré-especificados e como foram definidos.
- Denominadores e risco absoluto por braço, inclusive de eventos sérios.
- Abandono por evento adverso, redução de dose e suspensão, por grupo.
- Duração da exposição e momento de aparecimento dos eventos.
Temas relacionados: efeito absoluto e relativo, múltiplas comparações, metanálise.
Referências
- Friedman LM, Furberg CD, DeMets DL, Reboussin DM, Granger CB. Fundamentals of Clinical Trials. 5th ed. Springer; 2015. Capítulo 12, Assessment and Reporting of Harm.
- Aspirin Myocardial Infarction Study Research Group. A randomized, controlled trial of aspirin in persons recovered from myocardial infarction. JAMA. 1980;243(7):661-9. PMID: 6985998
- The Diabetes Control and Complications Trial Research Group. The effect of intensive treatment of diabetes on the development and progression of long-term complications in insulin-dependent diabetes mellitus. N Engl J Med. 1993;329(14):977-86. doi: 10.1056/NEJM199309303291401
- Connolly SJ, Ezekowitz MD, Yusuf S, et al. Dabigatran versus warfarin in patients with atrial fibrillation. N Engl J Med. 2009;361(12):1139-51. doi: 10.1056/NEJMoa0905561
- Moore TJ, Singh S, Furberg CD. The FDA and new safety warnings. Arch Intern Med. 2012;172(1):78-80. doi: 10.1001/archinternmed.2011.618
- Ioannidis JP, Lau J. Completeness of safety reporting in randomized trials: an evaluation of 7 medical areas. JAMA. 2001;285(4):437-43. doi: 10.1001/jama.285.4.437
- Ioannidis JP, Evans SJ, Gøtzsche PC, et al. Better reporting of harms in randomized trials: an extension of the CONSORT statement. Ann Intern Med. 2004;141(10):781-8. doi: 10.7326/0003-4819-141-10-200411160-00009
- Pitrou I, Boutron I, Ahmad N, Ravaud P. Reporting of safety results in published reports of randomized controlled trials. Arch Intern Med. 2009;169(19):1756-61. doi: 10.1001/archinternmed.2009.306