Stefano Garzon

Estatística · 4 jun 2026

CHARM e o efeito do aderente saudável

David Cohen publicou recentemente sobre o CHARM. Aqui aprofundo um ponto da análise de adesão.

Adesão ao placebo no CHARM

O braço placebo é a parte mais instrutiva da análise. A boa adesão ao candesartan e a boa adesão ao placebo tiveram reduções de mortalidade quase iguais: HR 0,66 e 0,64. O placebo não tem farmacologia. O sinal vem do paciente, e não do comprimido.

O precedente do Coronary Drug Project

O CHARM reproduziu o Coronary Drug Project. Nele, os aderentes ao placebo tiveram mortalidade em 5 anos de cerca de 15%, contra 28% nos não aderentes. A diferença persistiu em 9,4 pontos percentuais após ajuste para 40 covariáveis basais.

Por três décadas, esse resultado foi lido como prova de que a adesão não pode ser ajustada. A conclusão era que só a análise por intenção de tratar merece confiança. Esse veredito vale para o método de ajuste usado, e não para o fenômeno.

Adesão como processo variável no tempo

A adesão muda ao longo do tempo, e o seu fator de confusão também. O paciente que piora aos poucos toma menos comprimidos e também morre. O ajuste basal não alcança um fator de confusão que muda com o tempo.

Murray e Hernán reanalisaram os mesmos dados com ponderação pela probabilidade inversa (IPW) para preditores de adesão medidos após a randomização. A associação no placebo caiu para 2,5 pontos percentuais (IC 95% −2,1 a 7,0).

O que isso significa

O efeito por protocolo pode ser estimado quando a adesão é modelada como processo variável no tempo. O efeito do aderente saudável existe, mas é confusão. Em princípio, confusão pode ser removida.