Stefano Garzon

Estatística · 23 out 2026

Desfechos compostos: construção e interpretação

Conceito

Um desfecho composto combina dois ou mais tipos de evento em uma única variável de resposta. Cada participante contribui com no máximo um evento para a análise. A unidade de análise é o participante, não o evento. Em análises de tempo até o evento, conta-se o primeiro componente que ocorrer.

Motivo do uso

O composto aumenta a taxa global de eventos em relação a qualquer componente isolado. Com mais eventos, o tamanho amostral necessário diminui. O cálculo amostral usa a taxa combinada. Em termos aproximados, se os componentes não se sobrepõem, a taxa do composto é a soma das taxas:

pcomposto≈p1+p2+⋯+pkp_{\text{composto}} \approx p_1 + p_2 + \dots + p_k

Na prática há sobreposição, porque o mesmo participante pode ter mais de um tipo de evento, e a taxa observada fica abaixo da soma.

O composto também se justifica quando os componentes decorrem da mesma condição ou respondem ao mesmo mecanismo de ação. Nesse caso, o resultado combinado permanece clinicamente interpretável.

Critérios de construção

A fonte recomenda componentes com:

Quando um componente menos grave é muito mais frequente, ele domina o número de eventos. O resultado global passa a refletir esse componente. Componentes de menor relevância clínica reduzem a interpretabilidade do composto.

Relação entre o composto e os componentes

Cada componente tem bem menos eventos que o composto. O poder para detectar efeito em um componente isolado é, portanto, baixo. Um componente sem significância estatística não invalida um composto significativo.

A credibilidade do resultado depende de os componentes apontarem na mesma direção. Uma salvaguarda proposta é exigir que o componente mais grave, como a morte, se mova na mesma direção que o resultado global. Outra é restringir o composto primário a componentes graves e deixar eventos mais leves como desfechos secundários.

A interpretação do composto e o que se pode afirmar sobre cada componente devem ser definidos antes do início do ensaio.

Problemas de relato

Cordoba e colaboradores revisaram 40 ensaios randomizados publicados em 2008 com desfecho composto binário. Em 28 (70%), os componentes não tinham importância clínica semelhante; em 20 deles, morte era combinada com internação. Em 13, a definição do composto mudava entre resumo, métodos e resultados. Só 24 (60%) apresentavam estimativas confiáveis do composto e de cada componente. Em 11 de 16 ensaios com composto significativo, a conclusão do resumo sugeria que o efeito valia também para o componente mais importante.

Erros comuns ao ler um artigo

O que conferir ao ler um ensaio

  1. Definição de cada componente e se ela é a mesma em métodos, resultados e material suplementar.
  2. Número de eventos por componente em cada braço.
  3. Direção do efeito em cada componente, com destaque para o mais grave.
  4. Se os componentes têm gravidade e frequência comparáveis.
  5. Se a forma de interpretação estava pré-especificada.

Exemplo genérico em cardiologia

Ensaios cardiovasculares usam com frequência compostos de morte cardiovascular, infarto e AVC, às vezes acrescidos de revascularização ou hospitalização. Quando o componente mais leve e mais frequente é incluído, a leitura deve começar pela tabela de componentes antes da curva do composto.

Referências