Estatística · 23 out 2026
Intenção de tratar e exclusões pós-randomização
Conceito
A análise por intenção de tratar (ITT) inclui todos os participantes randomizados e todos os eventos definidos no protocolo. Cada participante é analisado no grupo para o qual foi alocado, independentemente do que aconteceu depois. Diretrizes regulatórias exigem essa contabilidade completa.
A randomização equilibra os grupos em fatores prognósticos conhecidos e desconhecidos. Esse equilíbrio vale para o conjunto randomizado. Qualquer remoção posterior de participantes quebra a comparação original.
Retirada e exclusão
Os termos têm sentidos diferentes. Exclusão designa, em geral, quem não atendeu aos critérios de entrada na triagem e nunca foi randomizado. Retirada designa um participante randomizado cujos dados foram removidos da análise, cujo seguimento foi interrompido ou que abandonou o estudo. Ao ler o fluxograma, identifique se cada número se refere a falha de triagem ou a remoção após a randomização.
Fontes de viés nas exclusões pós-randomização
Não adesão. A adesão depende do tratamento alocado, por exemplo pela tolerabilidade. Excluir quem não aderiu compara grupos que deixaram de ser equivalentes. O tamanho e a direção desse viés não podem ser estimados nem corrigidos depois. O Coronary Drug Project mostrou o problema. A mortalidade em 5 anos foi de 15,0% entre os bons aderentes ao clofibrato e de 24,6% entre os maus aderentes. No placebo, a diferença foi a mesma: 15,1% contra 28,3%. A adesão marcava o prognóstico, independentemente do comprimido.
Números iguais, motivos diferentes. Retirar o mesmo número de participantes em cada braço não garante ausência de viés. Os motivos podem diferir entre os grupos e corresponder a riscos diferentes de desfecho. Na prática, é impossível provar que a retirada não foi diferencial. O ônus dessa demonstração cabe ao investigador.
Inelegibilidade descoberta depois. Erros de registro, de laboratório ou de interpretação diagnóstica podem incluir participantes que não atendiam aos critérios. Excluí-los após a randomização remove parte do equilíbrio entre os grupos. Friedman cita o ensaio do Canadian Cooperative Study Group em AVC como exemplo histórico dessa prática. No Anturane Reinfarction Trial, a FDA questionou a exclusão, após a randomização, de pacientes considerados inelegíveis.
Eventos precoces. Em ensaios de prevenção, alguns autores excluem eventos ocorridos logo após a randomização, com o argumento de que a condição já existia. O mecanismo de ação da maioria das terapias não é conhecido o suficiente para sustentar essa exclusão. Quando usada, os resultados devem ser apresentados com e sem esses eventos.
Cruzamento entre braços. Há propostas de censurar participantes no momento em que cruzam para o outro tratamento, como na reanálise de Detre e Peduzzi do ensaio VA de cirurgia de revascularização. O ajuste por covariáveis basais não elimina diferenças entre quem cruzou e quem não cruzou. Fatores não medidos podem explicar essas diferenças.
Salvaguardas quando há retiradas
Quando o protocolo permite retirar participantes, a fonte recomenda:
- regra de retirada escrita no protocolo antes do início do ensaio;
- decisão tomada sem conhecimento do braço alocado, de preferência por alguém externo à equipe operacional;
- decisão no início do seguimento, antes do desfecho;
- regra que não dependa dos resultados globais do estudo.
Se os investigadores apresentarem uma análise com exclusões, devem apresentar também a análise ITT. Resultados concordantes aumentam a confiança. Resultados discordantes indicam que a análise ITT deve prevalecer como conclusão principal.
Erros comuns ao ler um artigo
- Aceitar o rótulo “ITT” sem conferir se todos os randomizados entraram na análise. Muitos artigos usam o rótulo e excluem participantes.
- Tratar “ITT modificada” como ITT. A fonte considera o termo contraditório. O rótulo ITT só se aplica quando praticamente todos os randomizados são analisados, ou quando a fração excluída não poderia alterar a conclusão.
- Considerar a análise por protocolo mais válida por “refletir o efeito real”. Ela perde a proteção da randomização.
- Concluir que retiradas equilibradas entre braços são inofensivas.
O que conferir ao ler um ensaio
- Número randomizado por braço e número analisado por braço no desfecho primário.
- Motivo de cada exclusão e momento em que ocorreu (antes ou depois da randomização).
- Definição exata da população de análise na seção de métodos.
- Se há análise com exclusões, se a análise ITT também é apresentada e se as duas concordam.
- Se a regra de retirada estava no protocolo e foi aplicada às cegas.
Em ensaios de não inferioridade, a lógica muda: a ITT tende a favorecer a conclusão de não inferioridade. Esse ponto é tratado no texto sobre não inferioridade.
Referências
- Friedman LM, Furberg CD, DeMets DL, Reboussin DM, Granger CB. Fundamentals of Clinical Trials. 5th ed. Springer; 2015. Capítulos sobre análise, retiradas e adesão.
- Peto R, Pike MC, Armitage P, et al. Design and analysis of randomized clinical trials requiring prolonged observation of each patient. I. Introduction and design. Br J Cancer. 1976;34:585-612. doi: 10.1038/bjc.1976.220
- Coronary Drug Project Research Group. Influence of adherence to treatment and response of cholesterol on mortality in the Coronary Drug Project. N Engl J Med. 1980;303:1038-41. doi: 10.1056/NEJM198010303031804
- Canadian Cooperative Study Group. A randomized trial of aspirin and sulfinpyrazone in threatened stroke. N Engl J Med. 1978;299:53-9. doi: 10.1056/NEJM197807132990201
- Temple R, Pledger GW. The FDA’s critique of the Anturane Reinfarction Trial. N Engl J Med. 1980;303:1488-92. doi: 10.1056/NEJM198012183032534
- Detre K, Peduzzi P. The problem of attributing deaths of nonadherers: the VA coronary bypass experience. Control Clin Trials. 1982;3:355-64. doi: 10.1016/0197-2456(82)90025-3