Stefano Garzon

Estatística · 23 out 2026

Ocultação da alocação e desequilíbrio basal

Conceito

Ocultação da alocação significa que quem recruta e inclui participantes não consegue prever a próxima alocação. Ela protege o momento da inclusão. O cegamento protege o período após a alocação. São salvaguardas distintas.

Sem ocultação, quem inclui pode decidir, consciente ou inconscientemente, quem entra e quando. Um ensaio nominalmente randomizado passa então a se comportar como um estudo não randomizado quanto ao risco de desequilíbrio.

Evidência empírica

Chalmers e colaboradores revisaram 145 relatos de tratamento do infarto agudo do miocárdio. Dividiram os estudos em três grupos: randomização oculta (57), randomização possivelmente não oculta (45) e controles não randomizados (43).

GrupoDesequilíbrio em ≥ 1 variável prognóstica (p < 0,05)Diferença de letalidade (p < 0,05)
Randomização oculta14,0%8,8%
Randomização possivelmente não oculta26,7%24,4%
Controles não randomizados58,1%58,1%

O desequilíbrio foi cerca de duas vezes mais frequente sem ocultação e cerca de quatro vezes mais frequente sem randomização. A frequência de diferença no desfecho seguiu o mesmo gradiente.

Desequilíbrio basal em ensaio bem randomizado

A randomização não garante equilíbrio perfeito, sobretudo em amostras pequenas. Em ensaios grandes com ocultação adequada, diferenças na tabela 1 refletem acaso. O teste de significância de diferenças basais responde a uma pergunta já conhecida: os grupos vieram do mesmo processo aleatório.

A relevância de um desequilíbrio depende da força da associação entre a variável e o desfecho. Uma diferença pequena em um preditor forte pode importar mais que uma diferença grande em uma variável sem valor prognóstico.

Ajuste por covariáveis

Há duas posições na literatura. Uma restringe o ajuste às covariáveis com disparidade evidente e prefere a estimativa não ajustada nos demais casos. A outra ajusta para um conjunto pequeno de fatores sabidamente prognósticos, independentemente do desequilíbrio observado. Canner e Beach e Meier participaram desse debate.

Incluir covariáveis fortemente associadas ao desfecho reduz a variância da estatística de teste e aumenta a sensibilidade da análise. O ajuste raramente remove toda a influência de um desequilíbrio.

Em qualquer das posições, o conjunto de covariáveis da análise ajustada primária deve estar no protocolo. Ajustes escolhidos após ver os dados são exploratórios.

A estratificação pode ocorrer antes da randomização ou na análise. Em ensaios grandes, o ajuste na análise tem poder estatístico semelhante ao da estratificação prévia e permite incluir fatores que só se mostraram relevantes depois.

Erros comuns ao ler um artigo

O que conferir ao ler um ensaio

  1. Mecanismo de alocação: central, por sistema eletrônico, envelopes opacos sequenciais ou outro.
  2. Se quem incluía tinha acesso à sequência.
  3. Tamanho do ensaio e magnitude das diferenças basais nos preditores conhecidos do desfecho.
  4. Se as covariáveis de ajuste estavam pré-especificadas.
  5. Se as estimativas ajustada e não ajustada concordam.

Referências