Pesquisa · 23 out 2026
Qualidade de vida relacionada à saúde como desfecho
Conceito
Qualidade de vida relacionada à saúde (QVRS) é a medida da vida do participante sob a ótica da saúde e do tratamento. Ela pertence ao grupo dos desfechos relatados pelo paciente, definidos pela FDA como o relato do estado de saúde que vem diretamente do paciente, sem interpretação de um clínico.
Muitas intervenções em doenças crônicas têm como objetivo aliviar sintomas e preservar a função. Nesses casos, sobrevida e eventos não respondem toda a pergunta. A QVRS mede o efeito da doença e do tratamento de uma forma que faz sentido para o participante.
Sugarbaker e colaboradores avaliaram 26 pacientes com sarcoma de partes moles randomizados para amputação mais quimioterapia ou cirurgia conservadora mais radioterapia e quimioterapia. A hipótese de melhor qualidade de vida com a cirurgia conservadora não se confirmou. Segundo Friedman, o grupo amputado relatou melhor mobilidade e função sexual.
Dimensões
As medidas de QVRS são multidimensionais. Há consenso sobre quatro dimensões principais:
- Função física: capacidade de realizar atividades diárias, das básicas (banho, vestir-se) às intermediárias (cozinhar, tarefas domésticas).
- Função social: capacidade de manter papéis e atividades com família, amigos e comunidade.
- Função psicológica: ansiedade, depressão e preocupação, mas também vigor e esperança.
- Percepção global: nota geral de qualidade de vida ou de saúde em um período definido.
Dimensões adicionais incluem sono, função cognitiva, função sexual e impacto no trabalho. As dimensões medidas devem corresponder aos objetivos do ensaio. Medir dimensões que a intervenção não afeta aumenta a carga do participante sem ganho. O protocolo deve justificar as dimensões incluídas e excluídas.
Escolha do instrumento
Os instrumentos são genéricos (SF-36, EQ-5D), específicos de doença (FACT e EORTC QLQ em câncer) ou específicos de sintoma (dor, ansiedade). Revisões propuseram atributos mínimos: modelo conceitual, confiabilidade, validade, responsividade a mudança, interpretabilidade dos escores, adaptação cultural e linguística, viabilidade no cenário e carga para participante e equipe.
Itens únicos (nota de 0 a 10) reduzem a carga. Questionários com múltiplos itens têm maior validade de conteúdo e confiabilidade. O algoritmo de pontuação padrão do instrumento deve ser seguido para que os escores sejam interpretáveis e comparáveis entre estudos.
O ensaio CLASS randomizou 798 pacientes com varizes primárias para espuma, laser ou cirurgia. Os desfechos primários foram QVRS específica de doença (Aberdeen Varicose Veins Questionnaire) e genérica (SF-36 e EQ-5D) em 6 meses. A QVRS específica foi um pouco pior após espuma que após cirurgia (P = 0,006) e semelhante entre laser e cirurgia.
Momento e modo de aplicação
A avaliação basal deve ocorrer antes da randomização. As avaliações de seguimento devem coincidir com o período em que se espera mudança pela intervenção ou pela doença. Condições agudas com risco de recaída exigem seguimento mais longo.
O modo de coleta (presencial, telefone, correio, online) afeta completude, custo e viés. Entrevistas geram dados mais completos, mas estão sujeitas a viés do entrevistador. Questionários autoaplicados facilitam respostas sobre temas sensíveis. Os mesmos instrumentos devem ser usados em todos os grupos. Dados faltantes em QVRS raramente são aleatórios, porque participantes mais doentes respondem menos.
Diferença mínima importante
Um escore estatisticamente diferente pode não ter relevância clínica. A diferença mínima importante é a menor mudança percebida pelo participante como melhora ou piora e que levaria o clínico a mudar a conduta. Ela varia com a população e o contexto, e não há consenso sobre o melhor método para estimá-la.
O estrogênio mais progestina no WHI ilustra o ponto. Em 16.608 mulheres, o tratamento não teve efeito significativo sobre saúde geral, vitalidade, saúde mental, sintomas depressivos ou satisfação sexual. Houve benefício estatisticamente significativo, mas pequeno, em distúrbio do sono, função física e dor corporal no primeiro ano, ausente em 3 anos. No braço de estrogênio isolado, a redução do distúrbio do sono em 1 ano foi de 0,4 ponto em uma escala de 20 pontos.
Medidas de utilidade
As medidas psicométricas descrevem dimensões. As medidas de utilidade atribuem a cada estado de saúde um valor entre 0 (morte) e 1 (saúde plena), obtido por jogo padrão, troca de tempo ou escalas multiatributo. Elas permitem combinar morbidade e mortalidade em anos de vida ajustados por qualidade (QALY), usados em análises de custo-efetividade.
Erros comuns ao ler um artigo
- Tomar uma diferença com valor de p pequeno como clinicamente relevante sem compará-la à diferença mínima importante.
- Ignorar a proporção de questionários faltantes e a diferença dessa proporção entre os grupos.
- Aceitar QVRS de ensaio aberto como equivalente à de ensaio duplo-cego.
- Ler dezenas de escalas e subescalas sem considerar múltiplas comparações (ver múltiplas comparações).
- Interpretar um escore global sem verificar quais dimensões o compõem.
O que conferir ao ler um ensaio
- Justificativa das dimensões medidas e relação com o objetivo do ensaio.
- Instrumento validado na língua e na população do estudo, com pontuação padrão.
- Avaliação basal antes da randomização e momentos de seguimento compatíveis com o efeito esperado.
- Completude dos dados por grupo e método para dados faltantes.
- Diferença mínima importante pré-especificada e magnitude do efeito em relação a ela.
- Cegamento de participantes e avaliadores.
Referências
- Friedman LM, Furberg CD, DeMets DL, Reboussin DM, Granger CB. Fundamentals of Clinical Trials. 5th ed. Springer; 2015. Capítulo 13, Assessment of Health Related Quality of Life.
- Brittenden J, Cotton SC, Elders A, Ramsay CR, et al. A randomized trial comparing treatments for varicose veins. N Engl J Med. 2014;371:1218-27. doi: 10.1056/NEJMoa1400781
- Hays J, Ockene JK, Brunner RL, Kotchen JM, et al. Effects of estrogen plus progestin on health-related quality of life. N Engl J Med. 2003;348:1839-54. doi: 10.1056/NEJMoa030311
- Brunner RL, Gass M, Aragaki A, Hays J, et al. Effects of conjugated equine estrogen on health-related quality of life in postmenopausal women with hysterectomy: results from the Women’s Health Initiative Randomized Clinical Trial. Arch Intern Med. 2005;165:1976-86. doi: 10.1001/archinte.165.17.1976
- Sugarbaker PH, Barofsky I, Rosenberg SA, Gianola FJ. Quality of life assessment of patients in extremity sarcoma clinical trials. Surgery. 1982;91:17-23. PMID: 7054901